Na rua Soldado Mancias Alves, onde ergueu seu comércio em 26 de novembro de 1978, ainda está Antônio Neuri Santiago. São mais de quatro décadas no mesmo endereço, mas sua história começou antes, em 16 de dezembro de 1969, quando abriu sua primeira “tendinha” na Riachuelo.
De uma família de cinco irmãos, Neuri sempre carregou responsabilidades maiores do que a própria idade.
Antes de se firmar como comerciante, foi “mensageiro” no antigo Cais do Porto de São Borja, puxando mercadorias em um carrinho de mão para quem chegava de longe.
A infância foi feita de trabalho, não de escola. “Estudei só até a quarta série. Mas, graças a Deus, consegui escrever meu nome e aprender alguma coisinha ou outra, mas tudo com dificuldade”, afirma. Enquanto outras crianças e adolescentes estudavam, ele estava na labuta diária, por isso relembra: “Eu nunca entrei numa sala de aula durante o dia na minha vida. Não sei o que é isso”.
O comércio se tornou sua vida — e também sua prova de resistência. “Amanhecia trabalhando. Às vezes chegava nem na cama. Chegava o fim de mês, tinha meus clientes, caderneta, tinha que botar em ordem. Então era 05h30, 06h00, eu ia pegar minha bicicleta, e já ia na padaria buscar pão, leite”.
Hoje, aos 73 anos, ele abre as portas do seu pequeno mercado até as duas da tarde. Depois, ainda vai atrás do que falta. “A gente pequeno não tem condição de comprar grande coisa. Tem que batalhar, como diz o gaúcho, de unha e dente.”
Foram muitas quedas, dívidas, noites em claro. “Quebraram comigo meia dúzia de vezes. Eu tinha um coração grande, não sabia dizer não. Depois aprendi. Mas eu só peço saúde e força pra me lutar. Aí eu supero tudo.”
Na vida, criou quatro filhos — todos adotivos — e hoje se orgulha dos sete netos. “Peguei todos pequenos, criei na raça. Coloquei no bom caminho, graças a Deus.” A família se espalhou por outros estados, mas sempre volta. “Agora, dia 18 de agosto, faço aniversário. Espero todos aqui. Nem que seja só um almocinho simples, mas junto.”
Se há um segredo para tanto tempo de luta, Neuri resume em duas palavras: persistência e coragem.
E quando olha para o comércio de hoje, vê diferenças enormes em relação ao passado:
“Hoje, os mercados tem uma ótica de ilusão. Pode analisar: bota duas, três ou quatro coisas numa promoção e tu tá lá dentro e acaba pegando o resto. Nós, pequenos, não temos como fazer isso. Então só tem que ter paciência e trabalhar. Coragem para enfrentar. Sem coragem e força para lutar, tu não encara nada na tua vida.”
Quando teve problemas de saúde, os filhos tentaram lhe convencer a fechar seu mercadinho e ir morar com eles. Mas ele prometeu: eu vou me recuperar e vou seguir. Não foi fácil, mas superou as adversidades e segue trabalhando até hoje.
De São Borja, ele não fala sem emoção. “Eu não deixo ninguém falar mal da minha cidade. Se não está bem aqui, procure outra. Eu me orgulho de São Borja. É a minha casa, é onde lutei a vida inteira.”
E assim, entre as prateleiras de um mercado que é quase extensão de sua própria história, Antônio Neuri Santiago segue. Um comerciante que nunca parou — e que, enquanto tiver saúde, promete: “Vou continuar aqui”.



