Uma das denúncias mais sombrias das últimas décadas volta à tona na Europa. O Ministério Público de Milão abriu uma investigação sobre um suposto esquema de “safáris humanos” durante o cerco a Sarajevo, entre 1993 e 1995, quando ricos estrangeiros teriam pago pequenas fortunas para atirar em civis bósnios por diversão.
A apuração, conduzida pelo procurador Alessandro Gobbis, especialista em investigações antiterrorismo, teve início após a entrega de um dossiê do jornalista e escritor Ezio Gavazzeni, que reuniu indícios e testemunhos de um comércio macabro que transformou o sofrimento de uma guerra real em entretenimento para milionários.
Segundo o documento, cidadãos italianos, russos, americanos e canadenses desembolsaram o equivalente a R$ 610 mil — cerca de 100 mil euros — para participar das caçadas humanas em meio ao conflito. As viagens eram organizadas pela companhia aérea iugoslava Aviogenex, com base em Trieste, no nordeste da Itália, e contavam com trajetos de avião, helicóptero e veículos militares até os arredores de Sarajevo.
Os atiradores, descritos como “turistas de guerra”, eram posicionados nas colinas que cercavam a cidade, de onde disparavam contra civis desarmados: homens, mulheres e crianças que tentavam sobreviver ao cerco. Muitos foram mortos na “Alameda dos Snipers”, um corredor urbano que se tornou símbolo do terror vivido pela população bósnia.
O esquema, segundo a imprensa italiana, teria contado com a conivência de milícias sérvio-bósnias, que recebiam parte do dinheiro em subornos para fornecer armas e proteção aos visitantes. Entre os nomes citados, aparece o de Jovica Stanišić, ex-chefe da inteligência iugoslava e agente secreto da CIA, condenado em 2021 por crimes contra a humanidade em Haia.
As denúncias mencionam três italianos diretamente envolvidos: um de Trieste, um de Turim e um de Milão, este último dono de uma clínica de estética. Ainda há relatos de participantes de outras nacionalidades, incluindo americanos, russos e canadenses.
As chamadas “excursões de morte” duravam um fim de semana: partiam na sexta-feira e terminavam no domingo, permitindo que os participantes retornassem às suas rotinas civilizadas na segunda-feira, como se nada tivesse acontecido.
O Ministério Público italiano acredita que alguns dos envolvidos ainda estejam vivos e poderão responder por homicídio doloso qualificado por crueldade e motivo torpe.
Três décadas após o fim da guerra, o caso reacende as memórias de um dos episódios mais brutais da história recente da Europa e expõe, mais uma vez, a fronteira tênue entre a barbárie e a civilização.



