O documentário “A Máfia do Apito”, em exibição no SporTV, trouxe à tona um dos episódios mais polêmicos da história do futebol brasileiro. O ex-árbitro Edilson Pereira de Carvalho, pivô do escândalo de manipulação de resultados que marcou o Brasileirão de 2005, admitiu que o Internacional deveria ter sido o campeão daquela edição.
Na época, os 11 jogos apitados por Edilson foram anulados após a descoberta do esquema de apostas esportivas. A decisão mudou o rumo do campeonato: o Inter, então dirigido por Fernando Carvalho, perdeu a liderança porque a vitória sobre o Coritiba precisou ser refeita — e, embora o Colorado tenha vencido novamente, quem mais se beneficiou foi o Corinthians, que somou quatro pontos extras em jogos refeitos e assumiu a ponta até o fim.
O diretor da série, Bruno Maia, lembrou que até o então presidente corintiano, Alberto Dualib, reconheceu em gravação: “O título de 2005 foi roubado”.
“O Edilson vai aparecer na série dizendo que se não fosse ele, o Inter seria campeão. Isso vai aumentar ainda mais a indignação da torcida colorada”, afirmou Maia em entrevista à Rádio Gaúcha.
Outro episódio marcante daquela temporada foi o duelo direto entre Corinthians e Inter, no Pacaembu, válido pela 40ª rodada. Com o estádio lotado, a partida terminou em 1 a 1, gols de Tévez e Rafael Sóbis. Mas o lance jamais esquecido ocorreu quando o árbitro Márcio Rezende de Freitas deixou de marcar um pênalti claro em Tinga, derrubado pelo goleiro Fábio Costa.
Em vez de assinalar a penalidade, o árbitro interpretou simulação e expulsou o jogador colorado. Para muitos, aquele momento foi decisivo na perda do título.
O resultado manteve o Corinthians na liderança, restando apenas duas rodadas para confirmar o título — o que se concretizou na 42ª rodada.
Mas o Brasileirão de 2005 foi tão conturbado que terminou em uma cena inédita: dois times deram a volta olímpica na última rodada. Enquanto o Corinthians comemorava em Goiás, o Internacional também festejava em Curitiba, mesmo tendo perdido por 1 a 0 para o Coritiba.
A razão foi uma liminar concedida na madrugada de domingo pelo advogado Leandro Konrad Konflanz, que anulava a repetição dos 11 jogos apitados por Edilson Pereira de Carvalho. Com a decisão judicial, os pontos anteriores voltavam a valer, e o Inter aparecia como campeão.
Em Porto Alegre, a torcida colorada foi às ruas celebrar o título. Mas a alegria durou pouco: a liminar caiu horas depois, e o título acabou confirmado para o Corinthians, que oficialmente ficou com a taça. O episódio aumentou ainda mais o sentimento de injustiça e revolta entre os colorados, que acreditam até hoje terem sido os verdadeiros campeões daquele ano.
Para a torcida do Inter, o Brasileirão de 2005 ficou marcado como um campeonato manchado pela corrupção e pela arbitragem. Tricampeão nos anos 1970, o clube ainda não conseguiu conquistar outro título nacional desde então, batendo na trave em 2009 e em 2020, quando também chegou à última rodada com chances.
Duas décadas depois, a ferida segue aberta — e agora, com o próprio Edilson admitindo que o título era para ser do Inter, a frustração colorada ganha novos contornos e renova a sensação de que aquele campeonato, moralmente, foi do Inter.



