A Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagraram nesta quinta-feira (28) três operações simultâneas que miraram um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial já identificados no país, supostamente articulado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo as autoridades, o grupo criminoso utilizava toda a cadeia do setor de combustíveis — do plantio de cana à distribuição final nos postos — além do mercado financeiro, fintechs e fundos de investimento, para lavar recursos oriundos do tráfico de drogas e de fraudes fiscais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou a ofensiva como a “maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história”. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, também afirmou que se trata da maior investida já realizada contra facções criminosas no Brasil.
Como funcionava o esquema
- Produção agrícola e usinas
Coação de produtores: fazendeiros e donos de usinas de álcool foram pressionados a vender propriedades ao PCC, sob suspeita de incêndios criminosos usados como intimidação.
Sobrepreço e fraudes: a facção inflava valores de compra de cana para gerar créditos tributários indevidos.
- Distribuidoras de combustíveis
Fraudes fiscais: empresas pediam ressarcimento irregular de PIS/Cofins, recolhiam tributos muito abaixo do faturamento real e simulavam compras de combustíveis para emitir notas frias.
Lavagem de dinheiro: movimentavam grandes quantias em espécie e usavam notas fiscais fictícias para esconder valores ilícitos.
- Transportadoras
Desvio de metanol: produto destinado a indústrias químicas era clandestinamente entregue a postos e refinarias para adulteração de combustíveis.
Notas frias: a facção emitia documentos falsos que simulavam cargas de gasolina ou etanol.
- Refino e armazenamento
Empresas como Copape (formuladora) e Aster (distribuidora) participaram da fraude fiscal e contábil.
Terminais de armazenagem foram usados para ocultar origem e destino dos produtos adulterados.
- Postos de combustíveis e maquininhas
Lavagem por vendas simuladas: cerca de 140 postos sem movimentação receberam mais de R$ 2 bilhões em notas fiscais fictícias.
Combustível adulterado: entre 2019 e 2023, redes de postos ligadas ao esquema movimentaram R$ 52 bilhões. Vendiam combustíveis adulterados e até forneciam menos combustível do que o indicado na bomba.
Maquininhas de cartão: usadas para inserir dinheiro em espécie no sistema bancário, em nome de empresas de fachada.
- Comércio de fachada
Conveniências e padarias em nome de “laranjas” funcionavam como pontos de passagem de recursos. Essas empresas tinham vida curta e eram substituídas por outras semelhantes, dificultando rastreamento.
- Sistema portuário
O Porto de Paranaguá (PR) era usado para importar metanol em grande escala, que era desviado do destino legítimo e usado na adulteração de combustíveis.
O braço financeiro do PCC
Além do setor de combustíveis, a facção montou um sistema financeiro paralelo:
Fintechs como o BK Bank criaram “contas-bolsão”, onde recursos de clientes eram misturados sem identificação individual. Isso permitiu movimentar R$ 46 bilhões sem rastreabilidade.
Bancos paralelos: operadores ligados ao PCC controlavam diversas fintechs menores, criando camadas extras de ocultação.
Fundos de investimento: a facção controlava 40 fundos, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, usados para blindar bens e movimentar capital.
Patrimônio de luxo: entre os ativos apreendidos estão quatro usinas de álcool, 1.600 caminhões, mais de 100 imóveis (incluindo seis fazendas em SP avaliadas em R$ 31 milhões e uma casa em Trancoso-BA de R$ 13 milhões) e até um terminal portuário.
Prejuízo bilionário ao Estado
De acordo com estimativas da Receita Federal, o esquema sonegou ao menos R$ 7,6 bilhões em impostos. Só na esfera federal, a perda foi de R$ 4 bilhões, sendo R$ 1 bilhão já inscrito em dívida ativa
A megaoperação
A ofensiva envolveu 1.400 agentes e mirou 350 alvos em dez estados: São Paulo, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins.
As autoridades afirmam que o desmantelamento do esquema é um golpe sem precedentes contra as estruturas de poder financeiro do PCC, que havia conseguido infiltrar-se profundamente em setores estratégicos da economia brasileira.
O poder do crime no mercado de combustíveis
Segundo apuração do jornalista César Tralli, no podcast O Assunto, da TV Globo, empresários do setor afirmam que cerca de 40% de todo o mercado de álcool no Brasil está sob domínio do crime organizado, assim como entre 20% e 30% de todo o ramo da gasolina.
Esses números dão a dimensão da influência das facções criminosas na economia formal e explicam a complexidade do esquema revelado pela operação: um sistema bilionário que já havia se entranhado em toda a cadeia produtiva de combustíveis, desde a produção de cana até a revenda em postos espalhados pelo país.



