Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, a tragédia tomou proporções alarmantes não apenas em termos de vítimas civis, mas também em relação à perda de vidas de jornalistas. Em um ataque aéreo realizado contra o Hospital Nasser, no sul da Faixa de Gaza, ao menos 20 pessoas perderam a vida, entre elas cinco jornalistas. Este é apenas mais um capítulo de uma história sombria em que os profissionais da imprensa se tornam alvos de bombardeios, uma realidade que já resultou na morte de mais de 240 jornalistas palestinos, a maioria deles vítimas de ataques israelenses.
O número de mortos em Gaza entre os jornalistas ultrapassa qualquer expectativa histórica. Segundo o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ), o total de vítimas é mais de três vezes superior ao número de jornalistas mortos durante as duas Guerras Mundiais, uma comparação que revela a dimensão do que está acontecendo. Para se ter uma ideia, a guerra na Ucrânia, que começou em 2022, resultou na morte de 18 jornalistas — um número consideravelmente menor diante da carnificina que ocorre em Gaza.
O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas (ACNUDH) não poupou críticas à postura de Israel, alegando que a responsabilidade sobre esses ataques recai sobre o governo israelense, que precisa ser responsabilizado por ações tão fatais. “Esses jornalistas são os olhos e os ouvidos do mundo inteiro e devem ser protegidos. É preciso haver justiça”, afirmou Thameen al-Kheetan, porta-voz da ACNUDH. Ele ressaltou que investigações anteriores não resultaram em consequências reais e advertiu que a morte de tantos jornalistas palestinos levanta questões sérias sobre a intenção por trás dos ataques.
Em resposta, o governo de Israel, na noite de segunda-feira, anunciou a abertura de uma investigação sobre o ataque ao Hospital Nasser, classificando-o como um “erro trágico”, embora tenha omitido menções à tática de “double tap” — a prática de realizar uma segunda explosão minutos após a primeira, visando aumentar as vítimas. A prática é altamente controversa e proibida por convenções internacionais.
A repercussão internacional foi imediata, com condenações expressivas de líderes mundiais. O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou os ataques como “execuções horrendas” e pediu uma investigação rápida e imparcial. O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, David Lammy, expressou indignação e fez um apelo por cessar-fogo, enquanto o presidente da França, Emmanuel Macron, considerou os ataques “intoleráveis” e reforçou a necessidade de proteção a jornalistas e civis.
Organizações de liberdade de imprensa também se manifestaram, com a Repórteres sem Fronteiras cobrando a proteção dos jornalistas em zonas de guerra, algo que, segundo a entidade, não está sendo garantido em Gaza. O Comitê de Proteção de Jornalistas fez duras críticas à passividade internacional: “O assassinato de jornalistas em Gaza por Israel continua sendo televisionado enquanto o mundo assiste e não toma medidas firmes.”
Em meio a esse cenário devastador, a Associação de Imprensa Estrangeira apelou para que as mortes mais recentes de jornalistas sirvam como um “divisor de águas”, instando os líderes internacionais a agirem. A entidade exige que Israel cesse imediatamente os ataques a jornalistas, uma prática que já causou vítimas demais.
Em Gaza, a guerra não é apenas uma batalha pela terra ou por ideologias. Ela também é uma luta pela sobrevivência da liberdade de imprensa, que se vê ameaçada a cada vida perdida. A morte de mais jornalistas em Gaza do que nas duas Guerras Mundiais coloca a tragédia em uma nova perspectiva, destacando a urgência de um esforço internacional para garantir a proteção dos profissionais da mídia em zonas de conflito.



