Todo dia leio comentários que me deixam indignada. Recentemente, me deparei com um questionamento que se repete nas redes sociais: “Quantos homens morreram nesse mesmo período? Não somos todos iguais?”.
A pergunta parece procurar equilíbrio, mas na verdade minimiza a dor de mulheres que foram assassinadas.
No Rio Grande do Sul, em apenas 27 dias de 2026, 10 mulheres foram mortas e muitas outras sobreviveram a tentativas de feminicídio.
Em praticamente todos os casos, essas mortes e tentativas partiram de companheiros ou ex-companheiros, motivadas por ciúmes, misoginia e um pensamento ultrapassado que trata a mulher como um objeto de posse, que pode ser descartado a partir do momento em que ela busca escapar de ciclos de violência ou simplesmente decide terminar um relacionamento.
Cada uma dessas mortes carrega histórias reais: mães, filhas, amigas, colegas de trabalho, enfim, mulheres que tinham uma vida toda pela frente.
São vidas interrompidas por um problema estrutural e cultural que insiste em ser invisível para quem só vê números e busca comparações em contextos que não possuem relação um com o outro.
Quando alguém pergunta “e os homens?”, o que está dizendo, sem perceber, é que a morte de uma mulher precisa ser comparada para causar indignação.
Que a violência que ela sofre é relativa, que sua vida vale menos. É assim que a cultura do machismo se reproduz todos os dias: nas piadas, nas comparações, na indiferença.
Não, não podemos mais aceitar. Não podemos mais fingir que tudo é igual ou que a responsabilidade está distribuída de forma justa.
Cada comentário que desvaloriza a vida de uma mulher reforça o ciclo de violência. É urgente que as autoridades adotem medidas, que as delegacias funcionem, que a sociedade reconheça o problema.
Mas a mudança também começa em cada um de nós, em como reagimos e em como falamos.
Cada mulher importa. Cada vida importa. E a indignação não é exagero, é obrigação.
Se ao invés de lamentar a morte de uma mulher pela covardia de um homem, a sua primeira reação for buscar uma comparação onde não há, culpar a vítima ou buscar justificativas, você também é parte do problema e deveria refletir.
✒️: Juliana de Medeiros Alves



