O primeiro-ministro do Nepal, KP Sharma Oli, renunciou ao cargo nesta terça-feira (9), em meio a uma onda de protestos liderados por jovens contra corrupção, falta de oportunidades econômicas e restrições às redes sociais. A medida governamental de bloqueio de plataformas como Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e X provocou revolta em um país de 30 milhões de habitantes, dos quais cerca de 90% usam a internet.
O governo justificou a suspensão como forma de combater notícias falsas, discurso de ódio e fraudes online. No entanto, os manifestantes afirmam que a crise vai além da proibição das mídias sociais, refletindo a frustração da juventude com a falta de perspectivas econômicas. A taxa de desemprego para jovens de 15 a 24 anos era de 20,8% em 2024, segundo o Banco Mundial. Movimentos online contra os “Nepo Kids” — filhos de políticos que ostentam estilos de vida luxuosos — aumentaram ainda mais a insatisfação.
O clima de tensão se intensificou na segunda-feira (8), quando milhares de manifestantes, muitos jovens, invadiram o complexo do Parlamento em Katmandu. A repressão policial resultou em pelo menos 19 mortos e mais de 400 feridos. Durante os confrontos, manifestantes atearam fogo a uma ambulância, arremessaram objetos contra a polícia e incendiaram prédios públicos, incluindo a Suprema Corte. Na terça-feira (9), eles continuaram a protestar e incendiaram casas de ministros, incluindo a residência de Sharma Oli, onde a esposa do ex-primeiro-ministro, Rajyalaxmi Chitrakar, morreu carbonizada.
A renúncia de Oli foi anunciada em carta ao presidente do país, citando a “situação extraordinária” e a necessidade de buscar soluções políticas. O presidente Ram Chandra Paudel aceitou a decisão e iniciou o processo para escolher um novo premiê.
O movimento mobilizou principalmente a Geração Z, pessoas de 13 a 28 anos, e evidencia o descontentamento com décadas de corrupção e desigualdade. Mais de um terço do PIB nepalês (33,1%) depende de remessas de nepaleses que vivem no exterior, destacando a fragilidade econômica interna.
Organizações internacionais e a ONU condenaram a repressão letal da polícia e pediram investigação independente. A Anistia Internacional classificou como grave violação do direito internacional o uso de força letal contra manifestantes que não representavam ameaça iminente.
“Todos os cidadãos nepaleses estão fartos da corrupção. Todos os jovens estão indo para fora do país. Queremos proteger nossos jovens e melhorar a economia do país”, disse um manifestante à Reuters, resumindo o sentimento que impulsiona os protestos.



