Todo mundo já ouviu essa frase: “o Brasil não é para amadores”. E ela faz sentido. Os amadores até podem conquistar alguma coisinha aqui ou lá, mas quem chega mesmo são os profissionais. Profissionais no jogo do poder.
E, nesse jogo, ter amigos é fundamental. Amigos certos, nos lugares certos. Assim nascem grupos curiosos, onde advogado anda com juiz, político anda com empresário, policial cruza caminho com criminoso. Todos muito próximos, muito confortáveis.
O caso mais recente ajuda a entender. O ministro do STF responsável por analisar um processo bilionário envolvendo fraude no Banco Master resolveu viajar para assistir à final da Libertadores. Até aí, tudo bem. O detalhe é que foi no mesmo jatinho e no mesmo camarote do advogado do próprio banco, diretamente interessado no processo do qual o ministro é relator.
Mas calma. Foi tudo coincidência. Segundo o próprio juiz, entre um gole de champanhe e outro, não se falou absolutamente nada sobre o processo. Conversaram só sobre futebol, amizade e talvez o clima.
Coincidência também deve ser o sigilo absoluto imposto ao caso do Banco Master. Coincidência maior ainda é o processo não ter sido enviado, até agora, à Procuradoria-Geral da República.
E por que desconfiar? Estamos falando da mais alta corte do país. Juízes não se deixam influenciar por amizades, proximidade ou favores. Pelo menos é nisso que precisamos acreditar para seguir vivendo.
No Brasil, o segredo não é só deixar de ser amador. É ser profissional na arte dos contatos. Hoje chamam isso de “networking”. Antigamente tinha outro nome, mas deixemos assim.
Tudo segue normal. Normal como o fato de a esposa de um ministro ter contrato na casa dos 100 milhões com o mesmo Banco Master. Normal como receber cerca de 3 milhões por mês sem atuar em nenhum processo relevante. Mérito, esforço, reconhecimento do mercado. Quem somos nós para questionar?
Nada de estranho. Apenas mais uma prova de que o networking funciona muito bem.
E o que dizer do círculo de amigos do nosso excelentíssimo presidente do Senado, o nobre David Alcolumbre, que recebeu um presente especial de um um amigo cujo nome já demonstra seu grau de confiabilidade: o Beto Louco, investigado por conexões com o PCC.
Num jantar com presidentes de partidos e amigos políticos, lá estava ele, o Beto Louco, não como penetra, mas convidado de honra. E foi dele o grande presente da noite: canetas emagrecedoras cujo custo passa de 10 mil reais.
Assim, a cintura do Senador diminuiu e o círculo de amizades cresceu.
No Rio de Janeiro, é óbvio que a lógica não é diferente. Nesta segunda-feira (8), a Assembleia Legislativa decidiu revogar a prisão do deputado e presidente da Casa, Rodrigo Bacellar, preso pela Polícia Federal dias antes por suspeita de vazar informações sigilosas de uma operação policial que mirava um outro deputado investigado por ligação com o crime organizado.
Segundo as investigações, o deputado em questão é “TH Joias” (belo nome para um parlamentar), citado em apurações por tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e negociações com o Comando Vermelho. Já Bacellar, em um gesto de pura amizade, teria orientado sobre a preservação, ou destruição, de provas na véspera da operação.
Coincidência também é TH Joias ter diversas fotos ao lado do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que diz não acreditar na infiltração do crime organizado na política fluminense. É um grande circulo de amizade, formado pelo acaso, sem dúvidas. A vida tem dessas.
Na votação que revogou a prisão, votaram juntos esquerda e direita. Quando o assunto é amizade, não existe polarização. Certamente não existe nenhum interesse por trás desde apoio.
E aqui em São Borja, convenhamos, as coisas não são tão diferentes assim. Longe dos holofotes nacionais, o roteiro se repete em escala reduzida, mas com a mesma lógica. Aqui, ali, acolá, os mesmos sobrenomes, os mesmos grupos, as mesmas portas que nunca se fecham para alguns e nunca se abrem para outros.
Quem não faz parte da confraria observa de fora. E aprende que falar demais cobra um preço alto. Pensando nisso, por enquanto, prefiro terminar aqui. E sigo acreditando nas coincidências, afinal, a coisa não pode ser tão escancarada assim, certo?
Certo?



