O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se o centro de uma controvérsia institucional após revelações de que um resort de luxo ligado à sua família abriga cassino ilegal, foi negociado com fundos associados ao escândalo bilionário do Banco Master, serviu como palco de encontros privados com banqueiros e empresários e contou com o uso de recursos públicos (quase R$500 mil reais) para custear segurança e logística, ao mesmo tempo em que o próprio Toffoli conduz, no STF, as investigações sobre o caso Master.
O empreendimento é o Tayayá Resort, localizado em Ribeirão Claro (PR). Erguido por empresas ligadas a irmãos e primo do ministro, o local passou a ser tratado, nos bastidores da cidade, como o “resort do Toffoli”. Embora o nome do magistrado não apareça formalmente nos registros societários, reportagens constataram que funcionários se referem a Toffoli como proprietário e indicam que o ministro dispõe de casa exclusiva, barco e áreas reservadas dentro do complexo.
Além do vínculo familiar e da presença frequente do ministro, o Tayayá abriga um cassino com máquinas eletrônicas e mesas de jogos, atividade proibida no Brasil. A existência do espaço amplia o grau de irregularidade associado ao empreendimento e reforça a dimensão do escândalo, que extrapola o campo ético e alcança potenciais infrações legais.
A situação tornou-se ainda mais sensível porque fundos de investimento administrados pela Reag, instituição citada tanto no caso do Banco Master quanto na Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro ligada ao PCC, compraram participações dos irmãos de Toffoli no resort. Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que os aportes no Tayayá e em empresas associadas somam mais de R$ 20 milhões.
Essas transações ocorreram enquanto o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, era investigado por um esquema que envolve emissão de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro suficiente, segundo a Polícia Federal e o Banco Central.
Em dezembro de 2025, Toffoli puxou para si a relatoria de todas as ações relacionadas ao caso, passando a concentrar decisões que vêm sendo criticadas por investigadores e por setores do meio jurídico.
Paralelamente, dados oficiais revelam que ao menos R$ 450 mil em dinheiro público foram gastos pelo Judiciário para custear diárias de seguranças e servidores deslocados a Ribeirão Claro entre 2022 e 2025, sob a justificativa de prestar apoio a uma “autoridade do STF”.
O levantamento aponta quase 600 diárias pagas, sem identificação formal do ministro atendido, mas coincidentes com estadias frequentes de Toffoli no resort.
Imagens divulgadas pela imprensa reforçaram o caráter privado e político do local. Vídeos mostram o ministro recebendo, no Tayayá, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Luiz Pastore, que chegaram ao resort de helicóptero.
Os encontros ocorreram fora da agenda oficial e envolveram personagens com interesses diretos ou indiretos sujeitos a decisões do Supremo.
Apesar de o resort ter sido vendido em abril de 2025 ao advogado Paulo Humberto Barbosa, ligado à J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, Toffoli continuou frequentando o local de forma intensa.
Levantamentos indicam que o ministro passou ao menos 168 dias no Tayayá desde 2022, incluindo períodos de recesso e feriados prolongados, quando o resort chegou a ser fechado para eventos privados.
Diante da sucessão de fatos, o deputado federal Sanderson (PL-RS) acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pedindo a abertura de investigações sobre possível conflito de interesses, participação econômica indireta e irregularidades na atuação do ministro.
O Supremo Tribunal Federal reagiu com uma defesa institucional. O presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou que não há ilegalidade na conduta de Toffoli e classificou as críticas como tentativas de desmoralizar o STF. Eventuais inconsistências, segundo ele, poderão ser analisadas após o recesso.
Diante desse conjunto de fatos, o caso Tayayá expõe uma zona cinzenta entre interesses privados e a atuação pública de um ministro do Supremo. As apurações em curso dirão se se trata apenas de coincidência ou de um conflito incompatível com a função exercida.



