Patriotismo à moda Bolsonaro: o projeto familiar acima do projeto nacional

O Brasil é soberano. E aqueles que trabalham deliberadamente contra essa soberania não podem ser chamados de patriotas — devem ser responsabilizados e enfrentados à luz do escrutínio público. Em nome de interesses pessoais, o clã Bolsonaro está promovendo, com convicção e sem qualquer pudor, uma campanha internacional contra o próprio país. E isso é mais do que imoral: é um ataque direto à nação.

Nos bastidores da política externa, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atua há meses nos Estados Unidos — entre uma visita e outra à Disneylândia, paga com recursos públicos — com uma missão inédita e vergonhosa: articular sanções internacionais contra o Brasil.

Sim, um parlamentar brasileiro, mantido com dinheiro do contribuinte, pedindo que potências estrangeiras imponham punições ao país que jurou representar. O objetivo, ainda que não declarado, é evidente: tentar proteger o pai de processos judiciais no Brasil, mesmo que isso implique prejuízos diretos à economia, ao comércio exterior e ao emprego de milhões de brasileiros.

É o ego acima da Pátria. A vaidade acima da responsabilidade. O projeto familiar acima do projeto nacional.

Em postagem recente nas redes sociais, Eduardo pediu que seus seguidores agradecessem a Donald Trump e reforçou o coro por uma versão brasileira da chamada Lei Magnitsky, que nos Estados Unidos permite sanções contra autoridades estrangeiras por violações de direitos humanos. O recado é direto: que o Brasil seja punido para que sua família seja protegida. A lógica é perversa, mas transparente.

O que o clã Bolsonaro não esperava — e talvez aí resida o verdadeiro revés — é que o Brasil reagiria. Levantamentos já mostram que a maioria esmagadora das menções ao caso nas redes sociais ocorre em tom de crítica.

A indignação não parte apenas de opositores, mas de brasileiros de diferentes espectros políticos que enxergam o inaceitável: uma família política operando como se o país fosse descartável, desde que isso beneficie seu destino pessoal.

A falta de apoio à ofensiva de Eduardo Bolsonaro não se restringe ao debate público. A elite produtiva brasileira, historicamente mais simpática à direita, também já se manifesta com firmeza contra as ameaças de sobretaxação por parte dos Estados Unidos.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), não há qualquer justificativa econômica para uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras. Ao contrário do que diz Trump, o Brasil sequer tem superávit comercial com os EUA — o que torna a medida não apenas injusta, mas irresponsável.

Representantes do agronegócio e da indústria têm alertado que as sanções colocam em risco milhares de empregos e atacam diretamente setores que sustentam a economia nacional.

E o tiro pode sair pela culatra.

Historicamente, ações que confrontam o interesse nacional tendem a produzir efeitos contrários ao desejado. O caso recente do Canadá é ilustrativo: diante de declarações de Donald Trump que ameaçavam a soberania canadense, em que chegou a dizer que deseja “anexar” o país aos Estados Unidos, formou-se um movimento de unidade nacional em torno do governo Justin Trudeau, que resultou em fortalecimento político interno e eleitoral.

No Brasil, ao apoiar medidas que prejudicam a economia nacional, o clã Bolsonaro pode, inadvertidamente, fortalecer a narrativa do atual governo como defensor da soberania e da estabilidade — bandeira histórica do presidente Lula, que agora ganha respaldo nos próprios atos de seus adversários.

Trata-se de um movimento político involuntário, mas que pode alterar significativamente o cenário eleitoral em 2026.

E este não é um debate sobre partidos ou preferências ideológicas. Trata-se de uma análise sobre condutas públicas e seus impactos concretos. De um lado, há agentes que atuam com foco na preservação dos interesses nacionais ou que pelo menos não atentam contra o país; de outro, há ações que, motivadas por questões pessoais e políticas, podem comprometer a estabilidade econômica e institucional do Brasil. A distinção central está entre o uso responsável do mandato e o desvio de finalidade na atuação pública.

Afinal, o povo brasileiro merece líderes que o defendam — e não que o usem como moeda de troca. E, diante de qualquer tentativa de enfraquecer a soberania nacional, o Brasil tem não apenas o direito, mas o dever de reagir — com firmeza, lucidez e responsabilidade institucional.

Maicon Schlosser

Jornalista

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