A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (12) a Operação Transparência, mirando o coração do sistema político que, por anos, controlou a distribuição de emendas parlamentares no país. A principal alvo da ação é a advogada Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL) e figura central no aparato que movimentou o chamado orçamento secreto e, posteriormente, suas versões reembaladas dentro do atual governo.
Os mandados de busca e apreensão foram determinados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e cumpridos na residência da investigada e em seu local de trabalho, um gabinete na Câmara dos Deputados, onde Fialek segue atuando, agora vinculada à liderança do PP.
A investigação atinge diretamente as emendas de comissão, mecanismo que, após o fim das emendas do relator, passou a operar como substituto informal do orçamento secreto. O inquérito teve início a partir dos depoimentos de seis parlamentares de diferentes partidos, incluindo Cleitinho (Republicanos-MG), Glauber Braga (PSOL-RJ) e Adriana Ventura (Novo-SP).
Segundo a PF, os crimes apurados envolvem peculato, falsidade ideológica, uso de documentos falsos e corrupção. A corporação não revelou oficialmente o nome da investigada, mas documentos do STF deixam claro que Fialek é apontada como responsável por “controlar indicações desviadas de emendas”, operando em benefício de uma organização criminosa dedicada a desviar recursos públicos.
Trechos da decisão de Dino indicam que a servidora mantinha manuscritos pessoais com a realocação clandestina de verbas, prática que permitia alterar o destino de emendas a partir de pedidos informais de parlamentares. Um dos casos apurados envolve recursos originalmente previstos para Nova Russas (CE), redirecionados para Reriutaba (CE) a pedido do deputado Júnior Mano (PSB-CE), investigado por desvio de emendas em outra frente.
O poder de Tuca nos bastidores
Fialek atuou no gabinete de Arthur Lira entre 2021 e 2024 e, mesmo após a troca na presidência da Câmara, continuou responsável por uma planilha paralela de distribuição de verbas extras, segundo revelou o UOL em 2024. Esse sistema funcionava à margem das regras públicas: assessores formavam fila em sua sala para negociar repasses que ultrapassavam, de longe, o que as emendas individuais permitem.
Durante o governo Lula, Fialek também foi apontada como articuladora de um novo orçamento secreto no Ministério da Saúde, centralizando indicações de deputados aliados e da elite do Congresso.
Relação com a Codevasf
Além do cargo na Câmara, Fialek integrou até 2023 o conselho fiscal da Codevasf, estatal que se tornou símbolo da distorção de emendas, abastecida por bilhões de reais cujo destino foi questionado por órgãos de controle.
Resistência à transparência
Segundo depoimentos colhidos pela PF, Fialek foi peça-chave para impedir que presidentes de comissões cumprissem determinações do STF relacionadas à transparência das emendas. O deputado José Rocha (União Brasil-BA) afirmou ao UOL que foi impedido por Lira de seguir decisões da Corte sobre o tema.
Outro lado
Arthur Lira afirmou que só se manifestará quando tiver mais informações sobre a operação. A reportagem tenta contato com Fialek e sua defesa. O espaço permanece aberto para manifestações das partes citadas.



