O Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap) desencadeou, na manhã desta quarta-feira (10), a Operação SOS, que investiga um suposto esquema de propina envolvendo servidores ligados ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Porto Alegre. Segundo a Polícia Civil, o grupo teria estruturado, ao longo de anos, uma rede de favorecimento ilícito, fraudes em licitações e direcionamento de contratos para empresas com participação oculta de funcionários públicos.
A ofensiva cumpriu diligências em Porto Alegre e Gravataí, resultando na apreensão de documentos, celulares e outros dispositivos que devem reforçar as provas já reunidas. Quatro pessoas são investigadas.
De acordo com o delegado Cassiano Cabral, diretor do Dercap, o esquema envolvia uma série de práticas irregulares: direcionamento de consertos de viaturas para uma oficina que, em troca, repassaria propina a servidores; possíveis superfaturamentos; pagamento sistemático de vantagens indevidas; uso de empresas de fachada; e indícios de lavagem de dinheiro.
A investigação teve início após denúncias encaminhadas pelo Ministério Público, que apontavam irregularidades na contratação de motoristas do Samu, na locação de veículos para o Dmae e no envio de ambulâncias para manutenção. As apurações revelaram que servidores teriam atuado direta ou indiretamente na administração de empresas contratadas pelo próprio órgão onde trabalhavam, ocultando sua condição de beneficiários.
As irregularidades teriam começado em 2015 e se intensificado a partir de 2018, com novos contratos e prorrogações que se estenderam até 2024. Conforme o delegado Guilherme Calderipe, duas empresas foram identificadas como centrais no esquema, mantendo contratos duradouros com a administração municipal mesmo diante de indícios de favorecimento. Embora registradas em nome de terceiros, elas eram operadas por pessoas próximas a servidores do Samu.
O trabalho investigativo também destacou o papel de uma oficina mecânica que, embora houvesse outras habilitadas, passou a concentrar cerca de 40% dos consertos da frota do Samu. Relatórios financeiros apontam movimentações típicas de repasses ilícitos: pagamentos do município à oficina seguidos por saques em espécie realizados por servidores em até 48 horas. Esses valores ultrapassam R$ 200 mil, segundo a Polícia Civil.
As análises identificaram ainda depósitos fracionados, movimentações incompatíveis com a renda dos suspeitos e saídas de dinheiro equivalentes aos valores pagos pela Prefeitura à empresa, padrão considerado característico de redistribuição de propina.
Com base nas provas reunidas, a Polícia Civil busca agora aprofundar o conjunto de evidências para comprovar o alcance da atuação das empresas envolvidas e o papel individual dos servidores suspeitos na manutenção do esquema. As investigações seguem em andamento.



