O ex-embaixador dos Estados Unidos John Feeley avalia que a mudança de postura de Washington em relação ao Brasil ocorreu menos por mérito diplomático do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e mais pelo esvaziamento político de Jair Bolsonaro, que deixou de ser relevante como aliado internacional após a condenação e prisão. Segundo o diplomata, o fracasso do ex-presidente brasileiro foi determinante para que Donald Trump perdesse interesse em defendê-lo.
Em entrevista à BBC News Brasil, Feeley afirma que Trump passou a enxergar Bolsonaro como um aliado derrotado. “Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores”, disse.
Para o ex-embaixador, Trump nunca teve envolvimento profundo com a política brasileira e abandonou Bolsonaro assim que ele deixou de representar capital político. “Não acho que Donald Trump saiba muito sobre Bolsonaro. Posso quase garantir que ele não acorda todos os dias pensando no Brasil”, afirmou. “E assim que Bolsonaro deixou de ser uma referência na política brasileira e o Estado de Direito e a justiça democrática prevaleceram no Brasil, Donald Trump simplesmente o descartou.”
Feeley destaca que o comportamento do presidente americano é marcado por imprevisibilidade e traços pessoais que dificultam qualquer negociação consistente. “Trump é extremamente imprevisível” e “narcisista”, avaliou. Nesse cenário, o diplomata afirma que o governo brasileiro não pode atribuir o desfecho das negociações a uma estratégia sólida. “Acho que Lula, francamente, teve sorte”, disse. “E eu encorajaria tanto Lula quanto praticamente qualquer líder a se manterem fora da órbita de Trump, na medida do possível.”
Em julho, os Estados Unidos impuseram tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e incluíram o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, na lista de sanções da Lei Magnitsky, em meio a pressões relacionadas ao julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. As medidas foram revertidas em novembro, quando Trump suspendeu as tarifas e retirou os nomes da lista.
Segundo Feeley, a ofensiva inicial teve influência direta do entorno bolsonarista. “Acho que a reação inicial dos Estados Unidos, ou da administração Trump, ao julgamento de Bolsonaro foi resultado direto do lobby de Eduardo Bolsonaro, seu filho, em Washington.”
Apesar das tensões políticas, o ex-embaixador ressalta que a relação bilateral vai além de disputas ideológicas ou conjunturais. “A relação entre os EUA e o Brasil é extremamente importante para ambos os países, independentemente de quem sejam os líderes”, afirmou.



