A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS iniciou oficialmente os trabalhos nesta terça-feira (26/8), no Congresso Nacional. O colegiado foi criado para investigar fraudes bilionárias contra o Instituto Nacional do Seguro Social, que teriam atravessado diferentes governos e afetado aposentados, pensionistas e outros beneficiários do sistema previdenciário.
O que aconteceu na primeira sessão
Na reunião de abertura, realizada às 9h, parlamentares aprovaram convocações e convites para:
Ministros da Previdência desde 2015;
Ex-presidentes do INSS e da Dataprev dos últimos 10 anos;
Diretores de benefícios do instituto;
O empresário Maurício Camisotti;
Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como figura central no esquema.
As reuniões regulares ocorrerão às segundas e quintas-feiras, para não coincidir com votações em plenário.
Como será a investigação
O relator da CPMI, deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), prometeu uma apuração “dura e implacável” contra todos os envolvidos, “independentemente de qual governo tenham participado”. O plano de trabalho abrange quatro gestões: Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Instalada em 20 de agosto, a comissão terá prazo inicial de 180 dias, prorrogável. Considerando o recesso parlamentar de 23 de dezembro a 1º de fevereiro, o prazo final para entrega e votação do relatório está previsto para 28 de março de 2026. A definição do calendário, no entanto, já gerou atrito: governistas defendem que a CPMI não seja usada como palanque eleitoral, enquanto a oposição pressiona para acelerar convocações que possam atingir o governo Lula.
A ausência de Frei Chico
Chamou atenção a não convocação de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula e vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi). Embora a entidade seja investigada pela arrecadação de R$ 259 milhões em descontos ilegais, ele não foi alvo direto da Polícia Federal. A oposição defendia sua convocação, mas o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), descartou a medida. Segundo ele, só serão chamados aqueles que tenham se beneficiado diretamente das fraudes. A decisão acirrou o embate entre base e oposição já no primeiro dia de trabalhos.
Polêmica envolvendo a imprensa
A abertura da comissão também foi marcada por atrito com jornalistas. O presidente Carlos Viana ameaçou suspender credenciais de profissionais que divulgassem informações sigilosas obtidas dentro do colegiado, como números de telefone de parlamentares ou documentos classificados.
“Os veículos de comunicação que publicarem informações particulares terão a sua credencial suspensa”, disse Viana.
A declaração foi vista como censura por analistas e jornalistas. Merval Pereira (G1) questionou: “Eu queria saber dele: o que ele acha que é jornalismo?”. Já Leonardo Sakamoto (UOL) chamou a medida de “censura para proteger incompetentes”, lembrando que informações expostas em espaços coletivos são de interesse público.
Não é a primeira vez que o Congresso entra em choque com a imprensa nesse tipo de comissão: durante a CPMI dos atos de 8 de janeiro, restrições semelhantes impostas pelo então presidente Arthur Maia (União-BA) já haviam sido classificadas como cerceamento por entidades de classe.
O que esperar
Entre convocações estratégicas, exclusões polêmicas e embates sobre liberdade de imprensa, a CPMI do INSS deve se tornar um dos principais focos do Congresso nos próximos meses. O desafio será equilibrar o dever de apurar fraudes sem comprometer a transparência e o direito da sociedade à informação — em um ambiente onde governo e oposição disputam cada espaço de narrativa.



